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“A Senhora de Wildfell Hall”, de Anne Brontë: um marco na história do casamento

 
Considerada a mais “apagada” das três irmãs, Anne Brontë foi, não por acaso, a mais ousada delas. Explico: sua verve visceral e realista ao narrar a condição feminina daquela metade do século XIX desnudou a intimidade dos casamentos victorianos a tal ponto que sua irmã mais velha, Charlotte Brontë, a festejada autora de Jane Eyre, pediu aos editores que “A Senhora de Wildfell Hall“, principal livro de Anne – publicado em 1848 com assinatura do pseudônimo Acton Bell – não fosse mais editado após a precoce morte de Anne, aos 29 anos. Tempos depois, alguns livreiros voltaram a editar A Senhora de Wildfell Hall, mas em uma versão “censurada”, tendo boa parte de sua força dramática amputada. Desta forma, durante décadas o livro seguiu como um “patinho feio” da família, chamuscado pelo brilho de “O Morro dos Ventos Uivantes“, da poética Emily, e da obra prima “Jane Eyre“, de Charlotte.
 
  Recentemente, o livro passou a ganhar o status que merece. O Grupo Editorial Record, que lançou no Brasil a versão integral do livro em 2019 – com tradução da queridíssima e talentosa Julia Romeu–, chegou a ignorar Jane Austen afirmando na orelha que se trata do “primeiro romance feminista da história” – certamente é um livro que quebrou os paradigmas sociais, mas, em minha opinião, “Orgulho e Preconceito“, de Jane Austen, foi o primeiríssimo romance feminista. Mas isso rende um debate interessante para algum outro post… Mas, justamente por tudo que denunciou, e por tudo que fez sonhar com uma sociedade diferente, Anne teve e tem um papel muito importante na história do casamento por amor e daí a minha escolha de que ele fosse o segundo livro a ser lido em nosso Clube de Leitura.
 
 
Ambientada na década de 1820, a trama angustia os leitores justamente por verem a protagonista em um casamento tão infeliz e cruel, diante da total impossibilidade do divorcio. Com uma linguagem direta e quase coloquial, Anne expõe e denuncia o quanto as mulheres eram completamente reféns de seus maridos. 
 
 
Por falar em linguagem, o livro tem no recurso das cartas e diários uma solução para que a história seja sempre narrada pelos seus protagonistas. Primeiro, é o olhar do jovem fazendeiro Gilbert Markham que nos apresenta a Sra Helen Graham, a mulher que quebra os paradigmas de seu tempo como uma postura forte e independente, capaz de reescrever sua história com coragem, sem perder de vista sua fé cristã. Ao assumir uma nova identidade e chegar à propriedade de Wildfell Hall, o mistério sobre seu passado gera especulação parte dos vizinhos. Gilbert não resiste a uma mulher com tanta autonomia e apaixona-se perdidamente. Mas, muitos desafios, preconceitos e convencões precisariamser superados para que ele pudesse se declarar a ela. E é quando a Sra. Graham permite que ele leia seu diário a fim de esclarecer os fantasmas do passado, que a gente mergulha em seu drama, narrado em primeira pessoa, desde a relação com um marido alcoólatra e de conduta abominável até a decisão de abandonar tudo em nome da necessidade de proteger seu filho da influência tão negativa do pai. 
 
A arquiduquesa Leopoldina e o então príncipe português Pedro no ano do seu casamento, em 1817
 
O ano de 1821 conecta Imperatriz Leopoldina e Helen Graham em seus casamentos desastrosos
 
O diário tem início em 1821. Quando vi aquela data na hora me lembrei da nossa Imperatriz Leopoldina. Ela estava viva nesta data. E neste mesmo ano se decepcionava de forma definitiva com o marido, Dom Pedro I, por motivos muito semelhantes: traição, má conduta, ameaças a sua dignidade como mulher e como pessoa. Por ser uma monarca, Leopoldina jamais poderia se divorciar ou muito menos fugir para reescrever a sua história. E quantas outras mulheres desta época estavam presas em casamentos como estes? Assim como Pedro I, o marido de Helen também dá a sua amante um “cargo” na intimidade de seu lar, levando a protagonista a decisão de romper com a situação. Ao contrario da nossa doce Pold, a fictícia Helen muda seu destino e termina sua trama em um casamento por amor. Mas, nesta época, o final feliz ainda estava muito restrito à ficção. No entanto, foi graças a coragem de escritoras como Anne Brontë, Jane Austen, Charlotte Brontë, Louisa May Alcott, e tantas outras, que a vida real começou a imitar a arte. Assim como Jane Austen, Anne escreveu sobre casamento sem nunca ter se casado. E, assim como Leopoldina, Anne morreu com apenas 29 anos, tendo feito tanto por nós, mulheres e noivas do século XXI, devidamente “empoderadas” por elas. Portanto, e por tudo, toda nossa gratidão à sua memória, Anne!
 
Seja moderninho case por amor
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